sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
como se o amanhã fosse eterno. dizia-me: não vás. e assim se prendia o sonho por mais umas horas. mas o sonho não pode ser agarrado. nem o amanhã é eterno. e eu ia.
tinha uma vida cheia de acontecimentos. todos eles marcantes. uma vida de superfícies planas. sem qualquer tipo de contúdos. sabia de tudo o que se passava no mundo. tudo lhe passeava debaixo dos olhos como se de um desfile se tratasse. era um homem solitário. constantemente acompanhado por um entra e sai de gente anónima e ao mesmo tempo habitual, conhecidos do dia a dia, clientes desejosos de saber as últimas, os horrores frescos que acompanham o café e a família. uma vida de letras grandes. mergulhado que vivia no cheiro de tinta e de papel. de revistas e de jornais. de tabaco. canetas. lápis. coisas. marroquinarias que serviam de prendas de última hora para os desastrados, para os que na verdade não ligavam aos laços, para os que na verdade se esqueciam do outro. ele vivia ali. numa loja sombria e um pouco húmida. no meio dos jornais. nacionais e internacionais. diários. semanários. de boa qualidade uns. pasquins do fogo de artifício outros. sabia todos os títulos de memória desde o primeiro dia. todos não. alguns já se lhe escapavam. havia uns que eram mais explosivos. outros nem tanto. dias com mais ou menos acção. às vezes os clientes metiam conversa sobre os assuntos e ele, com a sua vergonha nobre, lançava um título ou outro como que a explicar o desenvolvimento do acontecimento em si, a história do mundo em letras gordas, em capas, em imagens. títulos que desfilavam debaixo dos seus olhos, frases marcantes, tantas e tantas emoções retratadas dentro do seu mundo de papel. ao fim do dia o nada. a chegada a casa já não tinha qualquer significado. tirava a roupa. vestia o seu pijama velho. comia uma sopa e um bocado de pão. deitava-se. estava o dia ganho ou perdido, dependendo da perspectiva. de manhã cedo. uma espécie de labuta habitual. café. sair de casa muito cedo para arrumar a banca. para ordenar os jornais do dia na sua forma já habitual e demasiado rotineira. mais um dia. casa no fim. cama. manhã. por vezes parava no café da esquina para beber um copo e ouvir umas conversas, por vezes para além de beber esse copo e ouvir essas conversas ainda fazia sinal à senhora para subir ao quartinho, como ela lhe chamava. precisava desses rasgos na sua vida. estava demasiado conformado com o seu dar para que pudesse abandonar esse pequeno vício, estava demasiado metido nos dias, nas pessoas, nos pedidos, no mundo em farrapos que não compreendia, nem queria, quem quer afinal compreender o mundo? era um sábado de tarde. ao sábado sempre fechava na hora de almoço, estava convencionado assim, o negócio ao sábado fazia-se de manhã, com os senhores que iam para os cafés, que se punham em posições exibicionistas, cambada de incapazes, reis de nada, pediam o jornal com a sua arrogância do saber, chegavam ao café central da cidade e aí se punham, altivos, como se de um trono se tratasse, como se alguém os visse, como se não fossem eles que observassem os outros, enfim... adiante, cada geração sabe de si, cada geração projecta-se no mundo com os dados que possui. era um sábado. estava na hora do almoço. ao sábado dava sempre um pequeno passeio pela cidade, um pequeno passeio porque a cidade era pequena, normalmente almoçava um bocado de pão com conduto no banco do jardim municipal, depois tomava um café no central, apanhava o regresso dos senhores já de barriga cheia, depois do tão familiar almoço de sábado. nesse dia, sem saber porquê deixou-se ficar pelo central. pediu um copo. depois pediu outro. depois outro. e outro. e outro. já o empregado o olhava de lado quando pediu ainda outro. pagou. saiu para a rua mas ia já cambaleante. era a hora do passeio pela cidade. passou pelo jardim como que à procura de alívio para o tempo. os velhos. com os seus jogos e as suas conversas, aguardado a morte passivamente mas vestidos de acção. tudo aquilo o aborrecia tremendamente. passou pelo jardim como um tiro que se suspende mas que logo segue a sua marcha veloz em direcção ao alvo, pena que não fosse o infinito. nesse dia tudo o aborrecia. ao mesmo tempo que via tudo um pouco turvo pelo efeito da bebida. tudo o aborrecia mas tudo estava diferente, a cidade estava mergulhada no nevoeiro da embriaguez, tudo na sua cabeça. saiu do jardim e foi até ao café da esquina. pediu mais um copo. ouviu as conversas. olhou para a senhora e pensou no quartinho. para quê? bebeu o copo lentamente. meditava. pensava ansiosamente na senhora. nunca compreendeu o porquê de ir sempre com a senhora e com nenhuma das miúdas novas que estavam do outro lado da rua. era assim. talvez ela o compreendesse. talvez a solidão dela fosse ainda mais terrível do que a sua. os seus encontros eram sempre iguais. mecânicos. ele fazia-lhe sinal. ela saía. ele ia atrás dela. entravam numa porta ao lado do café da esquina. subiam ao quartinho. ela tirava a roupa. ele tirava a roupa. ela deitava-se. ele deitava-se. punha-se nela. explodia nela. vestia-se. deixava o dinheiro na mesa de cabeceira enquanto ela não o olhava. despedia-se. ia para casa. tinha um certo pudor em tocar na senhora. não se punha nela com violência nem com delicadeza. era um acordo. algo necessário. era físico. nesse dia, ela parecia-lhe extremamente bela, no meio daquele aborrecimento geral do mundo, a senhora tinha uma aparência de anjo translúcido e puro, cristalino, que tinha a marca da salvação escrita no seu corpo. fez-lhe um sinal, mas desta vez, foi um estranho sinal de vergonha, ela saiu, ele foi atrás dela. subiram ao quartinho. ela despiu-se. ele não. sentou-se na cama. disse-lhe: pode abraçar-me? ela sem uma palavra abraçou-o. ali estiveram uns segundos com o valor da eternidade. ele chorou sobre os braços dela. levantou-se. procurou o desviar dos olhos da senhora para deixar o dinheiro na mesa de cabeceira. mas ela não tirava os olhos dele. a senhora disse-lhe: hoje não quero dinheiro leve-me a jantar. ele limpou as lágrimas. disse-lhe: claro que sim passo depois a buscá-la pode ser? ela respondeu: claro que sim fico à sua espera. ele saiu. ainda era muito cedo. não tinha para onde ir. foi até casa. entrou. sentou-se. bebeu água. a bebida começava a desaparecer. sentia um vazio tão grande dentro de si. começava a aborrecer-se. decidiu ir à loja. abriu a porta e entrou no seu mundo. o seu mundo de sempre. o seu aborrecimento de sempre. abriu um pacote de tabaco e fumou um cigarro. soube-lhe mal. sentou-se num banco. olhou para as revistas penduradas nas paredes, para os jornais já do passado, sentiu uma profunda melancolia. e a senhora que teria de levar para jantar. teria de conversar. os jornais e os seus títulos gigantes e gordos. a melancolia. a senhora. a maldita ressaca que lhe provocava securas na boca e ardores no estômago. o vazio. o seu mundo sem perspectivas. começa a chorar como um rio em erupção. rasga papeis. parte o balcão. esfrega os papeis no seu corpo como num acto de amor próprio. pensa na senhora. na senhora que o espera. nas mãos dos outros que tocam na senhora. nos outros que se correm dentro da senhora. como num flash de tempo deita fogo ao espólio do mundo. tudo arde em labaredas coloridas com os químicos dos jornais, as quinquilharias derretem, o tabaco queima-se, tudo arde à sua volta, ele chora, tudo arde, a loja arde, o ar arde. a senhora espera. a senhora espera.
quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
domingo, 29 de Novembro de 2009
e pronto. estreia. como um copo de vidro. não deixo mais isto. está decidido. nada que me prenda os pés. é necessário voar para que não se bata no chão.
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
domingo, 22 de Novembro de 2009
apontamento
é provável que pensasse demasiado na palavra suicídio. não um suicídio no real, não um suicídio no corpo. um suicídio em que viria o silêncio absoluto. um suicídio passagem. ritual. sem sangue derramado e sem violência. como se houvesse algo mais violento do que o silêncio, quando se anda pela noite debaixo de chuva e se chega a casa mergulhado em solidões de ferro, solidões que são portas pesadas que separam a carne da vida. gostava de escrever sobre as pessoas. mas para isso teria de poder conhecer as pessoas. teria de entrar nelas. partir delas para o papel. as pessoas são enigmas. são vícios. são feridas. é preciso anular as pessoas para se poder escrever. as pessoas aparecem depois. talvez se revejam nas palavras, talvez abominem as conjugações de palavras e os verbos e os sentidos de um texto livro. os verdadeiros livros acabam por ser contra as pessoas, não por serem contra as pessoas, mas por construirem anti-pessoas, por serem pessoas codificadas, demasiado perfeitas ou demasiado irreais para que sejam possíveis. a literatura é sobre monstros. o teatro é sobre sentidos. a arte tem de esquecer. as pessoas têm de esquecer. o esquecimento é a única questão válida para a sobrevivênia. daí vem, talvez, o fascínio pelo suicídio. já devo ter atirado com a palavra esquecimento demasiadas vezes à cara. podemos esquecer-nos de tudo o que é exterior a nós menos do que se torna físico. as pessoas são ruínas. cada vez acredito mais nisto. cada um transporta a sua ruína. o seu segredo. a sua solidão. o seu silêncio. a sua angústia secreta. certo dia falava de uma ruptura. não sabia o que dizer. estava demasiado incrédulo para dizer o que quer que fosse. tentei palavras de conforto mas eram inúteis. claro. não há conforto para rupturas. para rupturas só o suicídio. é preciso deixar de ser um eu para se tornar num eu outro. é a única forma de sobreviver. é o esquecimento. as pessoas passam a maior parte do tempo a agir com interesses que nada tocam no sentido humano. porquê? por uma questão de traição delas mesmas. é um olhar sobre si e outro sobre o interesse abstracto na sobrevivência. não existe o outro na cabeça. o outro é a vantagem. o outro é o caminho ou o processo. o outro é a incapacidade de resolução do indivíduo solitário. é a crença limite no prazer e no interesse. é a morte total da salvação do mundo. escrever sobre o inumano. sobre a desumanidade. sobre fracturas que estejam tão expostas que se revelem de uma força tremenda. sobre o osso. cada vez me vejo mais mergulhado no perigo do ser errante. como se nada prendesse ou criasse laços. escrever sobre o mais rasteiro de tudo para chegar a uma nova revelação do espírito. nadar na merda. só quem conhece a falta pode falar sobre a falta. chega de apetites burgueses sobre o sofrimento alheio. comparações sobre quem está na margem. eu estou na margem. eu estou na margem. eu hei-de estar na margem até que as pedras digam o meu nome. pedras tumulares. falcatruas. nós não fomos feitos para morrer. fomos feitos para viver. sai-se para a rua e observa-se. caminhantes opacos. mirando vidros que prometem felicidade. chegam a casa e comem. deitam-se. fodem. amanhã é outro dia. compromisso nenhum. outros invejam a vida perfeita que estes possuem. mas não possuem nada. a vida que têm não é sua. é um sonho que lhes enfiaram na cabeça. construiram impérios a partir de pressupostos errados. escravos. violência. aparência. saem de casa com um sentimento altivo em relação aos que os rodeiam e depois voltam para casa com a cabeça cheia de mediocridade. latente. sem princípios. mortos sem sepultura. meios mortos. meios vivos. suicidados à nascença. iludidos com o poder. económico. social. obesos. pessoas cães. fugir a esse público. ratos políticos da vida. com palmadinhas nas costas que trazem num saco sem fundo. eu não sou o que sou. eu não sou o que sou. eu tenho esta arma chamada viagem. este vírus chamado vida. que me corrompe os dias e as noites. que me deixa aberto a solidões. que me leva para pontos em que eu não quero mais estar. há-de vir o dia. há-de vir o dia. onde estão agora as vozes? onde estou eu agora? onde? enfiadas em cabeças. deitadas sob a chuva numa rua qualquer. num esgoto da cidade obscura. cidade sem luz e tão cheia de lâmpadas. cidade onde o nojo se funde com o padrão perfeito da beleza. cidade merda. pesoas merda. eu. eu que rastejo nos antros obesos das coisas. nos antros gordurosos da vida. e vem o fogo e a água. e vem o fim. e há-de vir aquele que não nascerá para morrer. chamar-se-à silêncio. terá o rosto da morte. terá o cheiro da guerra.
descobri na escrita esse acto compulsivo que era necessário para substituir as pessoas. não fiquei feliz com isso. deitei fora imensos cadernos, cheios de frases enigmas que eu não queria entender. o mundo estava cheio de escritores que falavam por mim e eu podia deixar-me ir na corrente da solidão, passivo e silencioso. um nada vazio e impenetrável com uma voz desconhecida. um lugar em que o poder se quebrava, para sempre revoltado, com quem? com o sangue e a fome.
sábado, 21 de Novembro de 2009
era uma divisão de paredes comidas por uma humidade constante e com marcas de uma longa exposição ao tempo, uma luz branca que tornava o ambiente demasiado frio para que fosse confortável e que, ao mesmo tempo, dava uma luz exagerada e mostrava todas as cicatrizes das paredes e dos móveis. a decoração era mínima, velha, gasta, com um gosto bastante duvidoso, quase que descuidado. um candeeiro demasiado novo que contrastava com a estética envolvente. estética? sim, havia uma estética ali por muito estranha que fosse, notavam-se ali os vícios e os hábitos de quem habitava aquele cubículo bafiento, saturado de tabaco e de odores de corpo. no centro estava a cama. uma cama de casal feita de madeira já pouco envernizada, uma cama rangente, encostada à parede pela cabeceira, ao lado uma cadeira que servia de mesa, com um relógio e um pacote de lenços, com uma garrafa de água vazia, tombada, lixo que por descuido ali tinha ficado nalguma noite ou nalgum dia e que já parecia demasiado parte do mobiliário para que fosse deitado fora. a cama ocupava ali uma posição central naquele quarto, trono de algum rei em decadência, rei sem reino, rei vagabundo, provavelmente atirado para canto depois de perdido o esplendor da carne. a cama tinha uma colcha em tons de verde. por cima da cabeceira, na parede, um mapa do mundo, que deve ter sido palco de sonhos, sonhos de fugas e de viagens irrealizáveis, sonhos de dias de sol, de países perfeitos, de sistemas infalíveis. um mapa que permitia o sonho e que era da mesma forma a consciência certeira do lugar e da impossibilidade em que o reino tinha caído. chamava-se louise. tinha fugido da casa dos pais durante a adolescência. cansada das limitações da província, de não poder enxergar com a vista mais do que uns míseros palmos de futuro, cansada de se ajoelhar em igrejas por uma obrigação maior e totalmente falsa, uma obrigação que os outros pareciam criar-lhe, para bem, diziam, da salvação, como se a salvação maior não fosse a terrena. louise. o seu nome primeiro não era esse. nome já esquecido. tinha-se dado esse a si mesma na sua viagem iniciática, como se um nome novo fosse uma outra vida, um novo baptismo, também ele religioso mas de uma religião nova, única, uma religião de que louise era a única seguidora, pastora e rebanho de si mesma. nunca mais soube dos pais, não queria, tinha aquele crime que é feito de vergonha e orgulho metido na sua cabeça de mulher, além disso, podiam já estar mortos. os pais morrem quando ignoram os filhos. os pais não têm morte física, o mundo não lhes deu essa possibilidade quando criou os laços de sangue. louise estava velha. sentada naquele quarto, numa poltrona de um requinte decadente, com o seu corpo usado, estava pequena, mirrada, pássaro de ossos e pele, uma imagem faustiana, com o conhecimento mas sem a alma, o problema era que o seu diabo era um ser imaterial, um grito na terra. louise tinha mãos de aristocrata, amarelecidas pelo tabaco e pela vida mas mantendo o lado esguio e inútil desses seres de ninguém vestidos de burguesia. tinha tentado o destino. revoltada com sentido amargo. conformada o suficiente com a fraqueza da vida para se acomodar à sua situação de vazio. no início da sua segunda vida tinha uma mala de sonhos e uma de roupa que não usaria nunca mais. tinha juntado uns dinheiros para uma sobrevivência inicial. mas a cidade pode deslumbrar os espíritos inquietos e louise era dos espíritos que têm esse chamamento da vida, a disponibilidade total para embarcar no absoluto das coisas, a crença desinteressada no outro. acabou por se perder. embalada por canções distantes. nos meios ardilosos do crime. o corpo por menos de nada. a vida por ainda menos do que isso. sem poder de resposta, ali estava ela, com o tempo sobre si, numa poltrona decadente num quarto, único espectador da ruína, espectador passivo, impotente perante a violência maior, corpo vendido, corpo pisado, maltratado a troco de fome, miséria total. louise, a santa, a velha com pouca idade, magra e delicada, com o olhar de quem conhece a vida por dentro, a vida em todos os cantos de si mesma. sentada ali. atirada pelo mundo, qual saco de despojos. guerreira de nenhuma guerra, uma lágrima silenciosa cai-lhe no rosto, ela não a limpa, deixa-a escorrer até à boca, sorve-a, sente o sabor salgado da sua infelicidade, levanta-se da sua posição. levanta-se e anda. lázaro bíblico. o corpo tremente mas estranhamente digno. dirige-se à varanda. afasta as cortinas vermelhas como quem abre o teatro do mundo e se prepara para o espectáculo. sorve o ar com sofreguidão. olha o céu com o desejo infinito de voar. digna e sem alma. perto do céu. unificada com a terra. sobe o gradeamento verde de ferro da sua varanda, salta. como um santo cai do seu altar último. até tocar no chão.
atenção

Otelo, de Shakespeare, encenação de Kuniaki Ida, produção do Teatro do Bolhão, estreia 28 de Novembro!!! falta uma semana.
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
a mudança do rosto. flores que nascem sobre a terra. húmida. planícies de batalhas. campos em que a morte se espalha. o rosto desfigurado da guerra. depois da guerra. o rosto quebrado da desolação. era um homem e uma mulher. um dia os abismos cairam na terra. entre eles. os sonhos desfeitos. a consciência eterna do fim. e o rosto. esse na sua apresentação funesta. desconectando realidades. outras falcatruas. outras feridas. e ele dança sobre a vida como se o amanhã fosse irreal. e ela que chama a realidade palpável das coisas. ele que não escuta. são corpos cicatrizes. aberturas profundas na terra. caminhos. sulcos. erupções. era um homem e uma mulher. eram o quê? o vento sobre o pó. cinzas. animais em chamas correndo por montanhas de chuva. líquida a terra. líquido o corpo. desfeitas as conjunções. pecado. crime. mentira. a loucura da impossibilidade tocando as mãos religiosamente brancas. pára com os advérbios. que fazes tu agora? mero corpo incolor nas ruas de ninguém. quem te toca? quem te embala? hás-de vir depois do vento e sobre a tempestade como se viesses da guerra. já não te reconheço e tu és eu. quem és tu? estás como que deitado numa caixa obscura. casulos da vida. larvas da vida. sem alimento nos dias e nas noites. onde te encontras? corpo. onde estás? para que lado? qual a saída? a guerra fechou a porta e já não podes subir ao branco. à luz. depois da cinza a água que limpará o segredo. o túnel aí tão perto que lhe podes tocar. mas cuidado. ele faz com que a matéria desapareça. como se fosse um crime sentir o sangue derrotado. como se fosse um crime abjecto entregar as mãos. como se fosse um erro despedir-me do que não quero. há-de vir o tempo. espera-se a um canto até que a voz me chame. a minha voz me chame.
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
tinha plena consciência da merda em que me estava a afundar. no meio de uma densa obscuridade esse era o meu único pensamento de clareza sem limites. a afundar-me na merda. com cada vez menos saídas. a frustrar conscientemente os objectivos. como se o meu dever fosse falhar. lá está aqui o sentido do crime que se perpetua por dentro, um crime que é um engano. em pequeno fascinavam-me os golpes, atingiam uma dimensão poética que contrastava com o meu casulo mínimo. sonhei demasiado alto, houve um dia em que as palavras me visitaram com um ritmo nocturno, demasiado tarde, estava contada a história, o fascínio do registo da queda, o documento da queda em tempo real, que é ao mesmo tempo prisão e liberdade. voei demasiado alto na minha noite, no meu quarto, enquanto sonhava amores perdidos, as coisas gigantes da poesia. mas o mundo não tinha poesia, e se a tinha, certamente que não era a que eu queria. uma poesia de outros, tornada lugar absoluto, em que os livros eram objectos mais do que sagrados. era tarde para outras funções, estaria para sempre afastado da norma, era um corpo sem lei. e depois o amor, a expressão maior do mundo, purificado no sangue, atirado às pedras como um ser suicida. lá me ia eu esquecendo de mim enquanto me fechava cada vez mais no meu dentro.
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
e depois chegou-me o momento de não me poder diferenciar de um criminoso. era uma condição que me parecia natural, era um chamamento, uma coisa que deve ter-se desenvolvido comigo até ter chegado a um momento em que eu teria de aceitar o que vivia para poder seguir. talvez daqui venha o problema, em muitos casos é o carrasco quem corta a sua própria cabeça. e a morte é amante da cobardia. eu tinha a vida que não podia ter. que me estava vedada por uma questão de sangue e necessidade. o que se passou foi que numa conjuntura específica do tempo, o mundo inventou um monstro, e esse monstro sou eu, a minha luta é comigo. há muitos monstros neste mundo mas nem todos se apontam as armas. isto não é um orgulho. isto é um trabalho. de repente comecei a reparar que tinha uma bomba nas mãos e, essa bomba, estava para sempre soldada a mim. por vezes apareciam anjos e a bomba era como que esquecida, mas os anjos voltam sempre para o seu céu, e a bomba lá voltava dando sinais de existência. o processo sempre foi demasiado simples, é do nascimento até à morte. uns preocupam-se com os pontos, outros com o que está entre eles, outros com o que está entre eles e neles mesmos, outros só com um, o ponto último, esse é o meu caso, tenho a vida por resolver, até à morte, esse lugar.
se ganhasse muito dinheiro iria plantar tâmaras para a Tunísia. o Carvalhal é o novo treinador do meu clube, todo eu estou apreensivo em relação a este assunto!!! falta pouco mais de uma semana para a estreia. tenho saudades de coisas. preciso de fazer textos meus. preciso de trabalhar mais conscientemente para mim. tenho de escrever mais e melhor. preciso de um guarda-chuva. o tempo aqui é horrível. já li tudo o que aqui tinha. quero ler O HOMEM SEM QUALIDADES do Robert Musil. não estou habituado a ter tanto tempo. é uma seca. preciso de livros. preciso de fazer teatro. preciso de voltar a aprender o corpo.
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
apontamento
é a selva. andam palavras pelo ar em forma de gritos monstros. selva. como se as palavras só comessem os corpos presos. espaço aberto mas tão cerrado com violência que se torna irreal. é um sentir frio, frágil, o mergulho que se espera para o obscuro. ir e voltar. uns olhos do outro lado, fixos na perversidade. corpo objecto talvez abjecto. tempo para crescer depois da morte que foi o exílio. exílio? não se pode chamar isso a uma fuga da vida. o exílio é homicida e a fuga é suicida. ainda que as separações absolutas só existam nos livros e na cabeça dos outros. de dentro para fora. é agora que se escreve a palavra merda. merda.
chegou-te a noite a casa. qual noite? qual casa? um corpo e um saco. meia dúzia de sonhos obscuros, a noite. há insectos que se arrastam no chão. estás na rua. um buraco. duas cadeiras. sentas-te numa mas ninguém chega. saltas directo da cadeira para o solo frio e húmido da noite. afinal é noite. o teu problema é a casa. estás então deitado na terra. o ouvido colado a ela. um pulsar. um grito de dentro do mundo que nunca tinhas escutado. demasiado tempo à espera. na tua noite sem casa sentado numa das duas cadeiras e à espera. o grito da terra fria da noite massacra-te agora a cabeça. podes sempre meter o teu corpo no saco. saco abrigo. corpo bunker. soterrado pelas explosões da metafísica mentira. cala-te. silêncio. que o pulsar do mundo te atravesse essa tua cabeça de miséria. és um ser doente. não há casa possível para ti num mundo que não tem treva. nem guerra. nem outra forma física de falcatrua. adeus.
"O homem que aprende a saber de onde vem pode maravilhar-se por ser o que é, ou então, recordando as distorções que sofreu, ceder a um desencanto que o imobilizará, a menos que, à maneira de Nietzsche, se valha do humor genealógico ou da desenvoltura dos jogos críticos."
BLANCHOT, Maurice; Foucault como o imagino
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
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