quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

banda sonora dos dias. o criador recorrente.

apontamento

é a selva. andam palavras pelo ar em forma de gritos monstros. selva. como se as palavras só comessem os corpos presos. espaço aberto mas tão cerrado com violência que se torna irreal. é um sentir frio, frágil, o mergulho que se espera para o obscuro. ir e voltar. uns olhos do outro lado, fixos na perversidade. corpo objecto talvez abjecto. tempo para crescer depois da morte que foi o exílio. exílio? não se pode chamar isso a uma fuga da vida. o exílio é homicida e a fuga é suicida. ainda que as separações absolutas só existam nos livros e na cabeça dos outros. de dentro para fora. é agora que se escreve a palavra merda. merda.
chegou-te a noite a casa. qual noite? qual casa? um corpo e um saco. meia dúzia de sonhos obscuros, a noite. há insectos que se arrastam no chão. estás na rua. um buraco. duas cadeiras. sentas-te numa mas ninguém chega. saltas directo da cadeira para o solo frio e húmido da noite. afinal é noite. o teu problema é a casa. estás então deitado na terra. o ouvido colado a ela. um pulsar. um grito de dentro do mundo que nunca tinhas escutado. demasiado tempo à espera. na tua noite sem casa sentado numa das duas cadeiras e à espera. o grito da terra fria da noite massacra-te agora a cabeça. podes sempre meter o teu corpo no saco. saco abrigo. corpo bunker. soterrado pelas explosões da metafísica mentira. cala-te. silêncio. que o pulsar do mundo te atravesse essa tua cabeça de miséria. és um ser doente. não há casa possível para ti num mundo que não tem treva. nem guerra. nem outra forma física de falcatrua. adeus.
"O homem que aprende a saber de onde vem pode maravilhar-se por ser o que é, ou então, recordando as distorções que sofreu, ceder a um desencanto que o imobilizará, a menos que, à maneira de Nietzsche, se valha do humor genealógico ou da desenvoltura dos jogos críticos."

BLANCHOT, Maurice; Foucault como o imagino

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

banda sonora dos dias.

banda sonora dos dias.

Amanda Palmer: Exit Music (for a Film) by Radiohead from shoottheplayer.com on Vimeo.

um homem fala da violência que não tem para justificar a violência que gostaria de ter.
cidades.
pessoas de papel.
- aproximas-te do fim a uma velocidade de vertigem. é o chão quem te chama. espécie de queda ou doença. espécie de coisa de dimensão interna, estranha e invisível. corpo de ossos. desorganizado. máquina de zeros.
- sou um parasita do tempo. é isso.
- provavelmente nulo. sabendo o que és e o que fazes tens tudo para a resolução.
- resolução, revolução, neblina no olhar, boca em chamas. o que sei sei. o que sei é um pensamento enfermo, atirado para um covil de imagens selvagens, pesadelos. o fumo compulsivo de noites silenciosas. esboço de corpo.
- perdes o tempo com ideias. máscaras.
- é onde me ganho. tornei-me no rei do meu pensamento. talvez tenha definhado por fora. já não reconheço quem sou, o que sou.
- a verdade é que não és nada.
- a verdade... a verdade começa sempre com a expressão: era uma vez...
- é uma verdade histórica. um registo.
- o que são as coisas senão verdades mal contadas? ilusões tornadas factos? feridas tornadas bandeiras? vida tornada morte?
cerimónia. o quase morto está deitado numa quase cama. sangra com um ritmo de alucinação. o seu sangue salta da barriga em direcção ao tecto. fonte vermelha. torrente interminável. em volta do quase morto estão familiares, amigos, desconhecidos e outros corpos de plástico. todos deixam cair lágrimas, mesmo os de plástico. a cena é perfeita esteticamente e apresenta a mais absoluta de todas as simetrias. uma música paira no ar. é do estilo clássico, claro. por vezes o quase morto lança uns sons de sofrimento profundo e como reacção todos os presentes soltam os maiores rios de lágrimas que lhes é possível, mesmo os de plástico. a música insiste-se, repete-se, espécie de mantra. é uma cena matemática. aqui não existe tempo. a cerimónia da quase morte é infinita. o sangue e as lágrimas recusam o seu fim. o quase morto rodeado de quase vivos e de corpos de plástico, inseridos na mais absurda bolha do universo, um buraco negro que suga eternamente o sofrimento irreal de seres estáticos, estéticos, com fluxos cerimoniais. só na morte verdadeira voltarei a falar de respiração. ainda espero a luz que me visite estas imagens. lá fora está o tempo. quieto.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

banda sonora dos dias

Come To Daddy (Director's Cut) by Aphex Twin from aka anuar on Vimeo.

banda sonora dos dias

Seven from Fever Ray on Vimeo.

- pensava que tinha perdido tudo, meu caro.
- e perdi, não sei porquê o tom de dúvida.
- vejo-o de pé. parece saudável.
- a doença que tenho é invisível.
- e que lhe faz ela, a doença?
- come a minha vida devagar.
- como assim, come?
- é uma espécie de cancro no espírito que me puxa para baixo. uma doença explosiva. não me larga, a doença, obriga-me a viver.
- nada o pode obrigar a viver.
- há uma coisa que sim.
- o quê?
- a cobardia.
- costuma pensar muito em suicídio?
- constantemente. não em suicídio rápido. antes esta forma de morte prolongada. perpetuar o sofrimento para chegar à explosão.
- a sua doença caminha intensificando-se...
- claro, é uma doença progressiva, hei-de ficar tão frágil que terei de rastejar.
- e a cura?
- já lhe disse, sou cobarde.
uma velha dá comida a pombas e enxota as gaivotas. sentido humano: no meio de toda a merda em que se vive, a respiração torna-se estranhamente selectiva. ruptura com isto tudo. tornei-me num pedaço de chão.
vais no caminho para casa. são os silêncios do costume. há pensamentos loucos. a estranha voz interna da auto-mentira. exterior: não há luz. tudo está misteriosamente escuro, vou dizer que tudo está precipitadamente morto. ninguém. pensamento que grita. são suicídios, são revisitações abstractas do tempo, alojadas sobre os ombros, as costas atiradas para a terra. um ritual último. uma cerimónia de regresso. escadas que descem, obscuras no seu fumo. cabeça voadora, separada do corpo, pendurada na corda, dentro da água. voz fracturada. coleccionador de venenos. eu sou o desconhecedor de sentidos. um rei de nenhum reino. vais no caminho para casa. silêncios. paisagem desolada por uma projecção da carne, do sangue, do meu coração. está frio à minha volta. estarei perto de um qualquer fim. mergulho.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

era uma palavra que se proclamava a si mesma. um lugar depois do grito. o meu nome. como saído de uma boca com a inocência da primeira vez. acabado de nascer e já demasiado perto da morte. maldita infância. este terror insuportável das famílias como estilhaços. o pai morto. fantasmas de uma cólera inexplicável. descrição da infância: portas fechadas mas constantemente arrombadas, gritos, uma paisagem absurda de violência que se espalhou pelo tempo. ter a casa noutra terra. voltar sempre à cinza, casa queimada, corpos em fogo. daí vêm as palavras limitadas. falcatrua imensa na cabeça infantil. braços. pernas. corpo entalado entre a mesa e a máquina de lavar. sai daqui homem.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

subiam as águas alagando a terra
corpo antes áspero agora dissolvido
húmus resto da animalidade compacta
língua de miséria afogamento insecto
homicida e suicida na deriva ninguém
necessário virar para o dentro dizem as vozes
a convulsão da natureza chuva ritmos
alucinação física do mundo inquietante
corpo sem cabeça água exagero de palavras
bebedeira vazio bola boca silêncio
dentes na carne sangue palavras duras
terra revelando a insignificância da vida
antes era o deserto explosão agora pântano
ó maldita idade amarga que tudo cobres
obscuro o sentir carne rasgada terra
artifício ou viagem gente massa anonimato
silêncio absurdo que te traz a arma
arma absoluta com a direcção do crime
certeiro eficaz plástico virado para dentro

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

dias normais numa solidão que apanha a cabeça de uma forma estranha. ontem fui ao teatro, solitário. hoje fui ao Cunha, solitário. amanhã será outro dia, provavelmente solitário. uma seca. necessidade urgente de inventar projectos para ocupar o tempo. para ocupar o tempo e por uma necessidade de voltar a funcionar. ando com o corpo emperrado. e mesmo a cabeça está sem linguagem. foi demasiado tempo longe das tábuas. demasiado. estas coisas são físicas. aqui fica o desabafo. preciso de falar de vez em quando. chamem-me egoísta se quiserem.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

tenho andado a escrever em cadernos... por isso é que não meto aqui muita coisa... e também como não tenho internet muito regular... enfim... desculpai-me!!!

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

é um fragmento de vida carne dentro
respiração desaparecida na sombra tua
impossível lavar as mãos o olhar vítreo
incêndios e paredes caídas sobre o corpo

um dia vinham músicas distantes era o vento
trazia a voz secreta uma arma louca
os cenários palpáveis futuro de brilho
pés descalços olhos ruína uma barreira

corpos amontoados formando ferrugem
chegou e levou a luz silêncios ó maravilhas
despidas cruas sangrentas unhas

um outro lado do mundo tornado a queda
irmãos de sangue escorraçados viagens
terás cabelos de fogo minha boca ferida

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

e é o esqueleto que se sente demasiado apertado. o ar que falta. falta porque não sai. não renova. apodrece dentro. talvez no fundo de tudo a verdade seja apenas uma: não sabes fazer. e este fazer tantas e tantas vezes se confunde com o verbo da vida que já vais perdendo o rumo no simples caminhar. e o ar que se recusa a sair. se morres o ar sai através de ti. o ar foge-te. tens neste momento o ar prisioneiro na tua caixa forte. guardas aí muitas coisas. esse ar pestilento da tua vida vai enchendo as memórias de ferrugem. é uma espécie de guerra. é um amontoado de pó. pó de ossos. membros fragmentários. cabeça voadora e sem pensamento. lavagem. cidade cinza. solitários. lá vão eles em desfiles. claro que nem tudo é dor. também há sempre a ilusão desilusão da vida. aquela que te embala sonhos intermináveis só para te acordar. sempre para te acordar. chuva na janela. no tecto. escorre pelas paredes de dentro. inunda-te a casa. casa. casa. a casa que não tens.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

desabafo do regresso ao teatro

pois então todo este tempo só ajudou a que um gajo ficasse perro. é voltar atrás. devo estar neste momento muito perto daquilo que se pode considerar um amador. fogo. tenho de dar a volta a isto. estou contente mas cheio de cagufa, claro... quem pensa que é como andar de bicicleta que a tire da chuva, não é mesmo nada assim... claro que ainda é cedo e quero fazer o espectáculo da minha vida, cada um como se fosse o último. disto não posso desistir. era o que mais me faltava. lutar pela vida. lutar pela vida. descobrir o sentido para o que se faz. é o que se me passa na cabeça agora. descobrir um sentido. preciso de voltar a ter método.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

as folhas são demasiado grandes para a vida que temos. o dentro e o fora confundidos. deste-me um beijo. o beijo do tempo. senti-me alheio. alheio a mim.
a fase é lacrimejante. fase de fumo.
cheguei à cidade cinza.

domingo, 27 de Setembro de 2009

os meus mais sinceros desejos a este governo ou a outro qualquer.

banda sonora dos dias

a preparar as coisas e a cabeça. está quase quase. finalmente vou trabalhar num espectáculo com este encenador. estou curioso com tudo. é uma espécie de recomeçar. como sempre o é. embora este seja um estranho recomeçar. é o tempo da distância. ando a escrever estas coisas para me fazer ver. passaram dois anos desde a última produção em que entrei. passou um ano desde a última vez que pisei um palco. estas coisas têm o seu peso. estou provavelmente muito mais velho do que estava antes. digo velho de cabeça. embora já não esteja saturado. e até me considero muito mais aberto, se assim se pode dizer. tenho saudades das tábuas do palco. do palco preto. de chegar a casa lixado e com o problema nas mãos. tenho mesmo. e depois há uma coisa que é brutal... são três meses. três meses num país que não existe. num país que é uma amostra dele mesmo. que ainda vive para fora. país de ilusão. mais uma vez não votei. desta vez tenho uma desculpa. os processos. amanhã de manhã vou enfiar-me num estúdio a fazer umas dobragens. vou arrumar as coisas à pressa para me ir embora esta semana. já sei que vou ter pouco tempo e que vou roubar horas à noite. como sempre. a noite é irmã do dia. depois aguento mais dois dias. depois segue-se o imago. depois sábado é um dia importante para um amigo. e se é importante para um amigo é importante também para mim. depois segue-se o imago ainda. e depois segue-se o Porto. essa cidade abstracta. hehehe cidade abstracta. gosto disso. são demasiadas vezes a mesma história para se contar. aquelas ruas que se conheceram em momentos dispersos da vida. uns bons. outros nem por isso. voltar. voltar. teatro. teatro. Shakespeare. voltar assim. Shakespeare. estou inquieto. ainda estou inquieto. com a certeza de que quando estiver no palco todas essa inquietações serão completamente secundárias. isto vai ter de ser bom. este é o meu trabalho.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

sobre o regresso ao palco. uma felicidade louca. explicar mentalmente as razões do afastamento. fase de reflexão. fase de reflexão que se torna de repente em fase de acção. lembrar coisas passadas. quando de repente se tinha vergonha do que se fazia e o que se fazia era o que se era. nenhum actor pode fugir de si. de repente está-se ali. de repente está-se ali e deixa de ser justo. quando o teatro deixa de ser justo. provavelmente é nesse ponto que o actor deixa de ser actor. depois há a necessidade de gritar. e o grito afasta e fecha as portas que tem de fechar. e o mundo gira normalmente. mas o mundo que gira na sua normalidade é feito de contrastes. e não espera. e não é um mundo dado à compreensão. depois as pessoas que são a tua vida sentem o caos demasiado perto. o caos é o abismo. e o medo da queda é insuportável. mas tu vives nele. é esse medo constante de queda que move os passos e a direcção. hoje tremeram-te as mãos. merda. é só um regresso. é só um regresso. nada mais normal. regresso a um país que na verdade já não é o teu. deixa de falar para ti. já não é o meu. as coisas que se entranharam ainda por cá andam. a vida não se apaga com borrachas de brincar. os cães que ladram na distância têm um perigo relativo. são pouco relativamente perigosos. encontros e desencontros. tenho como objectivo a sua invisibilidade. deus morreu. foi assim. está contada a história. já o mundo está demasiado cheio de histórias trágicas. adiante no assunto. já faz tão pouco sentido que é como se se tivesse apagado uma mancha da vida. o universo faz-se de surpresas. nem todas são boas. é normal. num dia amas e noutro dia chove. num dia vomitas e noutro faz-se luz. a maldita luz. a luz. a luz das manhãs frias. luz branca. corpo vazio. viver de memórias de coisas. que o tempo passe como tiver de passar.

há dias assim

domingo, 20 de Setembro de 2009

sem paciência para escrever