quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

estou aqui:

www.projectoruptura.blogspot.com

último post oficial deste blog

meus caros e minhas caras. cada tempo é um tempo. chegou a hora deste blog. a derradeira. está provado pela vida que cada coisa chega ao seu ponto de total queda. é talvez a lei da saturação. uma das coisas inevitáveis deste mundo é que cada coisa caminha para um fim. assim se renova o universo. apesar das críticas e dos objectivos e das ideias... a verdade é que somos pouco mais do que nada. somos esquecimento. nascemos, andamos em círculos por um período de tempo e depois vem a queda, a morte que chega. há quem escreva livros. há quem produza materiais efémeros da verdade. há de tudo. o mundo permite essa miscelânea de factos e de dados e de verdades e mentiras. não interessa. as pessoas mudam de casa. mudam de roupa. mudam de amor. mudam do que quer que seja. é uma forma que já me andava a aborrecer. demasiado escuro. neste tipo de lugares virtuais, com este tipo de formato, o dentro é demasiadas vezes mostrado sem que o regresso seja possível. acabou-se este. não importa. outro virá.
o rei morreu viva o rei.
este lugar chegou a um ponto que deixou de ser justo, não que o mundo seja justo. mas chega disto. quem tiver de engolir merda vai engolir merda e quem tiver de beber água vai beber água. acabou-se. blog maldito. cheio de esperanças no início. coberto de enganos. enfim...
ao mesmo tempo, também quero dar corpo a uma coisa que tenho agora. pretendo investir numa coisa mais literária e ao mesmo tempo performativa.
projecto ruptura.
este blog está morto.

a partir de agora estou aqui:

www.projectoruptura.blogspot.com


acabou-se isto. aqui fica esta música. música de fim.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

banda sonora dos dias

sempre que dou nos coil... alguma coisa me sai...

apontamento

no lado obscuro da cabeça despida. um viajante. depois de queimados os ossos. água. palavras que saltavam para além das montanhas. rasgando os céus de cinza. cenário de catástrofe. morte em pedaços. desilusão. noite. céu coberto por corpos mascarados de pesadelos infantis. insectos. nadas. começava uma história sempre da mesma forma. um dia deus desceu à terra. os pés sobre o húmus. putrefacção. humidade. cavernas silenciosas com corpos soterrados. holocaustos. fadiga imaginária. paranóia. hora zero da humanidade. talvez consumisse demasiadas imagens de caos. desenvolvida uma estética de ruptura e um nível de violência demasiado virado para dentro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

banda sonora dos dias

domingo, 21 de fevereiro de 2010

o último espectáculo do GICC-Teatro das Beiras está bom. o GICC-Teatro das Beiras sempre apresentou espectáculos no Fundão, até houve uma altura em que uma parte do seu festival se apresentava no Casino Fundanense e no auditório da Escola Secundária do Fundão. muito provavelmente, durante muito tempo, o teatro que se via no concelho do Fundão eram maioritariamente espectáculos do GICC-Teatro das Beiras. e agora? será que foram atirados para alguma espécie de ostracismo político? o que se passa? porque será que não houve mais visitas da maior companhia de teatro da Beira Baixa às terras fundanenses? será que o nosso programador cultural pretende levar este espectáculo ao Fundão? não? porquê?

banda sonora dos dias. alguém me mandou este video para o mail. eu gostei.

era um homem era o nada - carta aberta ao senhor manuel frexes

caro senhor,
por um acaso qualquer na envolvência do espaço e do tempo, este mundo faz com que exista uma coisa chamada nascimento, nada de especial, também existe uma coisa chamada morte, tal como existe uma coisa chamada vida. por um acaso qualquer, numa conjugação de forças do acaso, nasceu o senhor, num dia que nada de abençoado teve para a linha do mundo, ou para a salvação da espécie, ou para o que quer que seja. o senhor não é sagrado. o senhor é um homem de carne e osso e pele e músculos e sangue, o senhor como homem que é, apresenta uma grande probabilidade de vir a falhar, isto é o mais normal em todos os sistemas, o ser humano é passível de falhar, aliás até nem acredito que o senhor alguma vez se assuma como perfeito, já que corria o risco de cair num ponto de ridículo de tal maneira ingrato que lhe faria corar o rosto. o senhor falha. não se assuste. o senhor falha, eu falho, os seus adversários falham, o ser humano falha, é uma das leis da vida. o problema é que eu quero falar para si, só por isso é que insisto mais no seu ponto do que no meu, ou do que no de qualquer outro.
caro senhor,
o senhor não só falha como também se coloca num ponto em que as falhas passam a ser consideradas graves, acho que neste assunto estaremos de acordo. o senhor pode controlar destinos, não, eu não lhe estou a chamar deus nem a atribuir nenhuma posição divina, o senhor não merece esse título. o senhor colocou-se num ponto em que, não só se ofereceu para controlar destinos, como também se ofereceu para resolver esses mesmos destinos. o senhor está numa posição que lhe permite, infelizmente, controlar a vida de muitas pessoas. pode dizer que foram as pessoas que o elegeram e essa será a sua eterna mentira democrática. não foram as pessoas que o elegeram, foram algumas pessoas que o elegeram, foi uma pseudo-maioria de pessoas que o elegeu, que o colocou na coisa mais abjecta que esta sociedade criou, o poder.
caro senhor,
o senhor, num ritual social em que as pessoas desenham uma cruz num papel, ritual este chamado democracia, o senhor venceu uma batalha politicamente importante. isto nada tem de extraordinário. o senhor humanamente nada venceu. o senhor não pode subir a um pedestal de glória por ter tido mais votos, a política não é uma guerra de audiências televisiva, a política é uma forma de acção directa que se tornou num jogo baixo em que a maior parte dos analfabetos dão a vitória quase sempre ao menos eficaz. o senhor foi eleito porquê? alguma vez terá pensado nisso? alguma vez terá o senhor pensado no facto de ter sido eleito apesar de ter sentenciado mortalmente toda uma cidade? pior, de ter eliminado para sempre um sonho de jovens e jovens, que desistiram de uma cidade que já não lhes pertence? de uma cidade que de o que foi um dia já só lhe resta o nome?
caro senhor,
o senhor fez uma obra grandiosa, é verdade, que caiam as pessoas e lhe beijem os pés, mas alguma vez falou das falhas constantes dessa sua obra grandiosa? alguma vez pensou nas consequências sociais que provocou desde que chegou ao controlo do município? não. e sabe porquê? porque o senhor é um fantasma. o senhor é um mero fantoche político, vulgo político profissional, o senhor foi um rosto dado a uma jogada partidária, o senhor é um cartaz, o senhor é pior do que isso, o senhor é uma fraude, o senhor colocou o seu pé em cima de gerações e gerações de sonhadores, o senhor atirou a terra para cima de uma cidade que tinha possibilidades de salvação. o senhor é um criminoso. o senhor é um criminoso desculpado pela sua farda de político, porque essa sua maldita farda permite-lhe o falhanço desculpável, permite-lhe criar fórmulas de engano, permite-lhe criar empresas municipais, permite-lhe colocar um grande número de pessoas a trabalhar para o que o seu rosto significa.
caro senhor,
falemos de qualidade. tem o fundão qualidade suficiente para que os seus habitantes cresçam como pessoas, ou se fixem, ou se sintam felizes? serão as pessoas felizes nessa cidade chamada fundão? onde é que o senhor vive? porque é que não há pessoas na rua? o senhor conseguiu acabar com o mercado, agora recuperou o lugar, mas o mercado está morto. o senhor pode dizer
que foi para fazer obras de reabilitação naquela zona, mas que obras são aquelas? que centro cívico é aquele? o senhor anda a atirar areia para os olhos de quem? que praça é aquela? uma praça em que os vendedores e os compradores quase têm de baixar a cabeça para não raspar no tecto. ah, claro, pode falar da biblioteca, de uma biblioteca que não tem condições para que sejam vistos filmes ou ouvir música sem que os outros se queixem, ou decidam o que querem ver, pode falar de uma biblioteca que mais parece uma central de tempos livres, que já abriu demasiado pequena, chamada hipocritamente de eugénio de andrade. mas em relação ao centro cívico também podemos falar do mamarracho megalómano da fonte das bolas!!! o que é aquilo? o senhor gostou da obra? não acredito que tenha gostado, afinal de contas o senhor é um homem de bom gosto, acreditam alguns...
caro senhor,
a cultura foi uma das suas bandeiras mais acesas. um desastre total e sem precedentes. deixe que lhe diga, acho que antes era melhor, perdemos festivais marcantes, perdemos diversidade e, mais uma vez o pior, perdemos possibilidades. a moagem é a maior falcatrua cultural deste país. a menina dos olhos que os senhores tanto apregoaram aos ventos todos. uma treta. não tem outro nome. treta. um auditório que não serve para mais de metade dos espectáculos que se fazem neste país, com uma fila de autocarro ou opção fila dos casais, com um palco mínimo, com um estrangulamento medíocre na arquitectura e nos despojos. aquele museu com os objectos que sobraram da moagem dá-me para chorar, principalmente depois de ter visto o grau de destruição levado a cabo na limpeza... é inútil fazer um museu arqueológico de fachada depois de ter destruído todo o recheio da moagem. eu acuso-o de destruição do património. eu acuso-o de destruição do património e de fraude social.
caro senhor,
a sua única desculpa para o estrangulamento dos lugares da cultura é, de facto, o carácter fragmentário da sua política cultural. na verdade, o seu vereador da cultura é sempre o presidente em exercício, o seu sucessor... dizem... o seu vereador da cultura presidente em exercício entregou os destinos da cultura a um senhor programador que é a nulidade absoluta da cultura neste país. qual é a linha, a política cultural que o senhor defende? ninguém sabe. não há uma corrente de público, não há uma perspectiva, há uns espectáculos dispersos, incrivelmente elitistas quase todos, há uma falta de objectivo e de responsabilidade social e educativa. senhor presidente, eu acuso-o de deseducar as pessoas, eu acuso-o de estrangulador de valores. o fundão tinha um grupo de pessoas com uma imensidão de possibilidades criativas. onde estão?
senhor presidente,
eu acuso-o de ter acabado com o casino fundanense. eu acuso-o de, com a criação da moagem, ter acabado com o sonho do cine-gardunha.
senhor presidente,
eu acuso-o de ter acabado com o parque das tílias, de ter ali feito uma rodela de cimento tão inútil como a agenda cultural que já não existe.
eu acuso-o de responsável pelo deserto de gente e de ideias a que o fundão parece estar condenado.
eu acuso-o de responsável pelo endividamento em que o fundão está enterrado.
eu acuso-o de assassino. eu acuso-o de pária. eu acuso-o de receber um ordenado que não merece.
eu acuso-o de não estar nunca numa cidade pela qual deu a cara.
eu acuso-o de traição.
eu acuso-o por o senhor ter falhado redondamente nos objectivos de uma cidade por se estar nas tintas.
eu acuso-o de ser presidente da câmara de silvares.
eu acuso-o de propagandista.
eu acuso-o de político.
eu acuso-o por ser responsável pela maior rebaldaria camarária de todos os tempos.
eu acuso-o de manipulador de resultados.
eu acuso-o por o senhor saber que as pessoas só votaram em si porque tinham medo que os que viessem não soubessem tratar do buraco profundo em que o senhor deixou cair as coisas.
eu acuso-o de cobardia.
caro senhor,
posso chamar-lhe todos os nomes feios que sei e posso inventar alguns novos para si e nunca vai ser suficiente, o senhor vai desculpar-se com conjunturas, o senhor vai desculpar erros graves que foram feitos com outros não tão graves, o senhor vai acabar por ir-se embora, o senhor vai acabar por ir-se embora de um sítio em que nunca esteve.
caro senhor,
aposto que o senhor dorme tranquilamente. aposto que o senhor não tem preocupações. aposto que o senhor ganha mais em ajudas de custo do que a maior parte das famílias portuguesas tem para sustentar os filhos.
caro senhor,
quero acreditar muito que o senhor não existe.
da próxima vez que estiver na varanda do seu gabinete e olhar para o jardim pense numa coisa: a cidade que o senhor vê já foi uma cidade mais viva. que essa imagem lhe persiga os sonhos e não o deixe dormir durante muito tempo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

experiência leitura


e pronto, aqui vai mais uma experiência de leitura de um texto incrivelmente maravilhoso, cala-te boca, que aqui foi postado antes dos meus 30's. é muito possível que esteja um pouco pimba, mas ainda ando a experimentar aos poucos estas porcarias... de qualquer maneira, já é uma vitória conseguir ler as minhas tretas. bem, chega de falsa tanga. o que está é o que é.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

andava no meio de capas de chuva
terrenos baldios do interior da cabeça
linhas ténues fragmentos disparos
corpo ruptura muscular e líquido
transformado em anjo negro
anti-matéria sanguessuga
o ar lá fora que circulava na imensidão alheia
que merda de palavras que saem
a tua boca está vermelha
soube a sangue
disseste que morrerias na chuva
o ar de abandono com que se seguiu a estrada
3h30m noite
talvez menos ou talvez mais
a festa insiste nas suas batidas
dizem-se coisas
o ano termina na sua normalidade
caprinamente natural

banda sonora dos dias

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

era uma vez. estava deitado no chão numa casa desconhecida. um silêncio inseguro. as mulheres sentadas choravam a morte de um velho. eu fumava muito com os nervos. deixava escorrer uma lágrima de vez em quando para não contrariar o que vivia. continuava deitado no chão. com a minha lágrima viajante que se dirigia para o solo com a força da gravidade. e fumava. o velho estava morto. eu já o tinha visto. à chegada. uma mulher agarrou-me na mão e disse-me: ele está ali. não me perguntou se eu o queria ver morto. não. agarrou-me na mão e levou-me ao espectáculo decadente do lugar. uma coisa natural na envolvência das famílias. as mulheres sentadas de volta do morto deitado na cama impecavelmente vestido. vi-o. era um rosto de cera branca com ramificações azuis que se dirigiam até aos cabelos. dir-se-ia que estava bem. para morto. a minha primeira impressão foi de que estava mais limpo e mais bem vestido do que eu. saí do quarto e deixei as mulheres nos seus gemidos de tragédia falsa e fui até outra divisão da casa. a minha infância foi ali. deitei-me no chão. fumava cigarros atrás de cigarros. tinha dormido pouco. descansei. só eu e o velho morto estávamos no mesmo ponto de vista em direcção às visitas. as mulheres choravam e eu fumava. uma mulher velha com os olhos cinzentos veio oferecer-me fruta. era uma maçã. não comi. estava enjoado. tinha feito uma viagem demasiado grande. ela disse: pois, não consegue comer não é? mas tem de comer, comer faz bem. eu disse: eu sei, eu sei, mas agora não consigo. ela deixou-me. ouvi-a entrar no quarto e desatar em convulsões lacrimais tão falsas como uma puta cabotina. desculpei-a. pensei com o meu cigarro: aqui é assim. continuei deitado com a cinza a cair em cima do meu casaco. devo ter dormido. acordei com um silêncio catastrofista. último homem no mundo. corri a lavar a cara. bebi água fresca da torneira. sabia a morto. lembrei-me: o morto. fui ao seu quarto. estava tudo muito mais tranquilo agora. acendi a luz. puxei de um cigarro e perguntei: queres? depois pensei: claro que não, estás morto. sentei-me e fumei um cigarro no meu mais profundo silêncio. a sua pele branca começou a transformar-se. ganhava reflexos alucinantes com o bater das luzes. quase que o escutava respirar. quase que o escutava falar. ou viver. ou como se nada daquilo se tivesse na realidade passado. como se eu tivesse podido dizer-lhe tudo o que lhe devia ter dito e que ficou entalado no fundo da minha cabeça. no fundo dos meus pulmões. e de repente tinha toda a minha vida para resolver. a vida passada e a vida futura. a infância distante começou a desfilar como uma armadilha diante dos meus olhos. e eu chorava diante do morto. e dizia: velho, velho, como podes ter morrido assim sem dizeres nada? como podes ter ido sem te despedires? como podes ter ido assim sem me teres deixado despedir? e vinha-me à cabeça o momento em que estivemos sentados à lareira num silêncio incomodativo. ou o momento em que o velho era outro e me cantava à janela e que me ensinava palavras. ou o momento das ameaças ou o momento da partilha de conhecimentos e da passagem do velho para o novo. e chorava e fumava. e pensava: foda-se, como podes ter sido tão distante do que não podes fugir, porque tu não podes fugir nunca do que és. e dizia ao morto: morreste. e perguntava: porquê? porquê? porquê? e as respostas não vinham. e ele não se movia. continuava com os reflexos da luz na sua pele de cera branca tocada por um azul escuro demasiado pacífico para que fosse possível voltar à vida. merda. se ao menos tivesse tido tempo. ou oportunidade. ou vontade. ou consciência. saí de casa e deixei o velho morto em paz. bem o merecia. é incrível como os fantasmas se apegam ao interior que pensa que controla tudo. de vez em quando surgem surpresas e os fantasmas acordam. trazem uma espada de fogo que ameaça as ilusões. andei pela rua. nasceu o dia. café. tabaco. umas palavras do homem do balcão que me conhecia. conhecer. que me tinha visto ali muitas vezes noutros tempos. umas palavras e aquele ritmo de quem não se sente à vontade para dizer as coisas da emoção. não fazia mal. eu também não estava para conversas. bebi outro café. voltei à casa. as mulheres começavam a chegar na sua preparação matinal para um dia que prometia emoções fortes. quem ficasse até ao fim, quem resistisse mesmo, talvez conseguisse ainda chorar. ora que bela vitória. talvez no dia que há-de vir lhes retribuam as lágrimas e a presença. muitas pessoas se juntavam agora na porta da casa. uns homens de fato escuro subiram e desceram com a caixa onde estava o velho morto. o lugar dos mortos era perto. levaram a caixa às costas. as pessoas seguiam a caixa do velho. muitas choravam. outras falavam. outras olhavam para as outras. eu ia atrás e fumava. falava com o velho na minha cabeça. ai velho, se aqui estivesses agora, o que ia ser desta gente? que motivos teriam para se encontrarem. e chorarem. e falarem. e verem os outros a chorar e a falar e a ver. velho sacana. aqui estou eu a chamar-te sacana e tu nem me respondes. deixei as pessoas entrar para o cemitério. fumei. o tabaco enganava o cheiro do lugar. um padre disse não sei o quê. entraram para uma capela. eu fiquei a fumar na rua. olhava para o lugar dos mortos com um certo fascínio. tanta coisa que ficou por viver. tanta palavra que ficou por ser dita. tantos que ainda tinham tanto para dar. tantos que já não davam nada. nada disso interessava. chegava a uma altura em que a linha parava. era assim. sentia-me estranhamente silencioso e em modo introspectivo. fumei mais uns cigarros e as pessoas começaram a sair da capela. começou a surgir a caixa de madeira que tinha o velho. aproximaram-se de um buraco no chão passando por outros. uns abertos e outros fechados. puseram a caixa dentro do buraco. pessoas choravam. gritavam a desolação da vida. o final. o animal chega a um ponto que pára. que o corpo abandona as lutas. que uma coisa maior vence a força do sangue e da respiração. fim. término. última paragem. fim da linha. fim da vida. não interessa. ó velho. estás condenado a acompanhar a minha cabeça até que te diga tudo o que não disse. as pessoas e os seus gritos. lágrimas. preto. rostos pálidos. afastei-me e vomitei aquela morte toda contra uma parede da capela. vomitei a noite passada e os dois cafés da manhã. os homens pegaram em pás e cobriram a caixa. uns abandonaram o lugar. outros ficaram até ao fim. à saída despediam-se aliviados. também eu saí dali. sem dizer uma palavra. velho. velho. ainda não sei onde estou hoje. temos falado muitas vezes.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

o último texto dos 20's

três décadas e depois o silêncio. nada mais a dizer. derramado o tempo por uma linha fragmentária. consciência. inconsciência. corpo. vazio. vontade. necessidade. palavra. uma pedra morta. a infância de gritos. livros de banda desenhada. livros de textos. mudanças de casa. o corpo que se mantém na sua ruína verdadeira. décadas. cidades. o amor. aquele que se estica ao longo da vida. olhar para trás. está frio agora. está um frio insuportável e lá fora desfilam as máscaras. caem-me bocados de chão em cima da cabeça. vinho tinto. beijos. bandas. drogas. danças. o maldito teatro do mundo na sua atitude contemplativa. era uma vez... já escrevi isto antes. reflexo. diante destes olhos caminham pessoas sons imagens coisas. a minha gata. a minha gata está doente. havia muitas casas na cidade. eram casas de alegria. um dia. demolição. pensamento. fase de reflexo. mãe. mãe. e o tempo caminha para o seu fim inevitável. algum dia o teu sonho bateu nas portas da morte? sim. todos. não é a morte infantil que te escava os caminhos da desolação. são três décadas entorpecidas. onde? onde estás? esta divisão é pequena para o teu horizonte sagrado. é um texto do sangue. um texto de despojos. guerra. guerra. guerra nenhuma diante de mim. passado presente futuro. alienação. a consciência forte do dentro já te poderia ter trazido a morte tantas vezes. e depois há os acidentes. há a história. há uma passagem luminosa de corpos sem cérebro. uma passagem de sons. de fúrias. imagens surreais enfiadas na garganta e que esperam o momento certo. vómitos. escritas. teatros. textos carne e textos cabeça. camas. ilusões. escolas. homens e mulheres. arte. dizem alguns. amigos. crimes. vergonhas. fugas. regressos. seres primordiais. estás no ponto da viagem. queres ponto de viragem. o cérebro queima os lençóis de sangue. já não és virgem. já deves ter despido a pele em quartos de areia cheios de sol ou de frio. e a gata está doente. aquela que é a tua filha de uma década está doente neste momento do tempo. os teus olhos querem procurá-la no meio do deserto mas só aparecem homens. gente. gente e gente e gente. vais beber o quê? vais onde? quem é o teu verdadeiro pai? o cabelo cai e as costas caminham na sua direcção futura. o corpo enrola-se para a terra que o comerá. os pais dos teus pais morreram. as mães dos teus pais estão vivas. tens um irmão. uma mãe. um pai de cinza. não suportas o cheiro da acetona nem podes aproximar garrafas de vidro do pulso. o telefone toca poucas vezes. foste um habitante de um país estrangeiro. vizinho e distante. que máscara tem agora o regresso? a máscara de um corpo sem posse. três décadas. o fisco. a segurança social é uma insegurança fantasma. gostavas de juntar todos os teu amigos e dizer-lhes obrigado. é carnaval. nos últimos anos o carnaval é uma festa mas agora não quer ser. silêncio. cascas de laranja nas pernas. grito. uma cidade no cimo do rectângulo foi o início de uma queda. chegar de manhã e ouvir a língua dos outros. aprender a ler. aprender a escrever. ter paz. ter uma maldita paz neste cérebro inquieto e megalómano. inventar palavras para estas frases. escrever um livro. um livro coberto por maldições. desinteressante. umas peças. aplausos obscuros à idade do nada. ritmos verbais. conjugações sistemáticas. quedas. solidões. solidões. solidões. corpo frustrado. poesia. ritmos. orações. viagens alucinantes na estrutura mental com amigos e com treta. talvez não saiba o que fica. talvez não saiba mais o que importam as coisas. bandas que tocaram em delírio. filmes. actores. textos. amor. amor. amor. amor. distâncias. fins. inícios. cabeça. eco. ego. parede luminosa nos programas retrospectivos da vida. falhanços múltiplos. vitórias. palco preto. frases. amor. partilhas. dois funerais presentes. o corpo da família branco e deitado. a família fraude que se chora para que se escute. silêncio. viagem de comboio. nascimento. família que traz a notícia que já se espera. saltos na cama. botas novas. irmão. irmão meu. maldita distância de espaço e de idade. este portugal moribundo. uma cidade. uma aldeia. alcongosta. fundão. porto. fundão. covilhã. lisboa. fundão. barcelona. porto. lisboa. porto. merda. teatro. restaurante. obras. teatro teatro. teatro. teatro. escrita. escrita. porque não vais para jardineiro meu filho da puta? porque não posso. porque não posso fugir a esta falcatrua que me deu vida. porque tenho de passar esta miséria de corpo de ossos enquanto combato moínhos quixotescos. enquanto dou porrada em aldrabices tão legítimas como a minha caralho. o colégio das freiras. os doces na sesta. a carrinha. a escola com o braço partido. depois a cabeça partida. depois o pé partido. depois os dentes partidos. entretanto duas vezes o queixo. mais umas feridas de guerras imaginárias chamadas infantilmente de medalhas. medalhas mesmo nunca tive. acho que nunca ganhei nada. uma vez um cabaz qualquer de natal ou de páscoa. um projecto falhado com uma encenadora morta. uns actores despedidos. uns gritos. castro. maldoror. subterrâneo. agora a mania dos textos próprios. mas que provavelmente não te levam a nada. uma cidade que te virou as costas. algumas pessoas. normal. os cigarros acumulados. bernardo santareno nas manhãs brancas da vida. shakespeare nos infernos. umas viagens na carrinha do toldo a desenhar o rectângulo. cervejas. cocaína. mdma. ácidos. pastilhas. charros diversos. speed. ópio e heroína não experimentei que não me apeteceu e não gosto do que conheço. md é fixe mas queima. coca é boa mas agarra. as bebidas são a lástima do corpo. umas cargas de porrada bem levadas e outras nem tanto. o costume. a porrada nem sempre depende de quem apanha. uns blogs. isto merece ser dito. uma cidade que foi um sonho que se acabou. fundão. psd fracasso absoluto. a ideia da cultura a tornar-se num balde de merda muito boa para poucos comerem. simpatia com todos. disponibilidade para tudo. muitos sonhos na algibeira. umas casas por resolver. uma cicatriz para tapar. ainda uns anos para viver.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

quase nas 3 décadas. parece que foi ontem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


aqui segue inédita uma leitura de um texto do maravilhoso, cala-te boca, epiderme. talvez isto caia numa coisa abusiva de efeitos e ruídos de fundo... mas como não tenho um gravador de voz e tenho de gravar directo para o computador... fica sempre uma coisa um pouco manhosa, nem fica em stereo!!! enfim... mas aqui vão ficando estes apontamentos de alguma coisa. abraços aos que contam. desculpem por andar um pouco desligado. mas o tempo tem sido escasso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

banda sonora dos dias

domingo, 7 de fevereiro de 2010