quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
tinha plena consciência da merda em que me estava a afundar. no meio de uma densa obscuridade esse era o meu único pensamento de clareza sem limites. a afundar-me na merda. com cada vez menos saídas. a frustrar conscientemente os objectivos. como se o meu dever fosse falhar. lá está aqui o sentido do crime que se perpetua por dentro, um crime que é um engano. em pequeno fascinavam-me os golpes, atingiam uma dimensão poética que contrastava com o meu casulo mínimo. sonhei demasiado alto, houve um dia em que as palavras me visitaram com um ritmo nocturno, demasiado tarde, estava contada a história, o fascínio do registo da queda, o documento da queda em tempo real, que é ao mesmo tempo prisão e liberdade. voei demasiado alto na minha noite, no meu quarto, enquanto sonhava amores perdidos, as coisas gigantes da poesia. mas o mundo não tinha poesia, e se a tinha, certamente que não era a que eu queria. uma poesia de outros, tornada lugar absoluto, em que os livros eram objectos mais do que sagrados. era tarde para outras funções, estaria para sempre afastado da norma, era um corpo sem lei. e depois o amor, a expressão maior do mundo, purificado no sangue, atirado às pedras como um ser suicida. lá me ia eu esquecendo de mim enquanto me fechava cada vez mais no meu dentro.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
e depois chegou-me o momento de não me poder diferenciar de um criminoso. era uma condição que me parecia natural, era um chamamento, uma coisa que deve ter-se desenvolvido comigo até ter chegado a um momento em que eu teria de aceitar o que vivia para poder seguir. talvez daqui venha o problema, em muitos casos é o carrasco quem corta a sua própria cabeça. e a morte é amante da cobardia. eu tinha a vida que não podia ter. que me estava vedada por uma questão de sangue e necessidade. o que se passou foi que numa conjuntura específica do tempo, o mundo inventou um monstro, e esse monstro sou eu, a minha luta é comigo. há muitos monstros neste mundo mas nem todos se apontam as armas. isto não é um orgulho. isto é um trabalho. de repente comecei a reparar que tinha uma bomba nas mãos e, essa bomba, estava para sempre soldada a mim. por vezes apareciam anjos e a bomba era como que esquecida, mas os anjos voltam sempre para o seu céu, e a bomba lá voltava dando sinais de existência. o processo sempre foi demasiado simples, é do nascimento até à morte. uns preocupam-se com os pontos, outros com o que está entre eles, outros com o que está entre eles e neles mesmos, outros só com um, o ponto último, esse é o meu caso, tenho a vida por resolver, até à morte, esse lugar.
se ganhasse muito dinheiro iria plantar tâmaras para a Tunísia. o Carvalhal é o novo treinador do meu clube, todo eu estou apreensivo em relação a este assunto!!! falta pouco mais de uma semana para a estreia. tenho saudades de coisas. preciso de fazer textos meus. preciso de trabalhar mais conscientemente para mim. tenho de escrever mais e melhor. preciso de um guarda-chuva. o tempo aqui é horrível. já li tudo o que aqui tinha. quero ler O HOMEM SEM QUALIDADES do Robert Musil. não estou habituado a ter tanto tempo. é uma seca. preciso de livros. preciso de fazer teatro. preciso de voltar a aprender o corpo.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
apontamento
é a selva. andam palavras pelo ar em forma de gritos monstros. selva. como se as palavras só comessem os corpos presos. espaço aberto mas tão cerrado com violência que se torna irreal. é um sentir frio, frágil, o mergulho que se espera para o obscuro. ir e voltar. uns olhos do outro lado, fixos na perversidade. corpo objecto talvez abjecto. tempo para crescer depois da morte que foi o exílio. exílio? não se pode chamar isso a uma fuga da vida. o exílio é homicida e a fuga é suicida. ainda que as separações absolutas só existam nos livros e na cabeça dos outros. de dentro para fora. é agora que se escreve a palavra merda. merda.
chegou-te a noite a casa. qual noite? qual casa? um corpo e um saco. meia dúzia de sonhos obscuros, a noite. há insectos que se arrastam no chão. estás na rua. um buraco. duas cadeiras. sentas-te numa mas ninguém chega. saltas directo da cadeira para o solo frio e húmido da noite. afinal é noite. o teu problema é a casa. estás então deitado na terra. o ouvido colado a ela. um pulsar. um grito de dentro do mundo que nunca tinhas escutado. demasiado tempo à espera. na tua noite sem casa sentado numa das duas cadeiras e à espera. o grito da terra fria da noite massacra-te agora a cabeça. podes sempre meter o teu corpo no saco. saco abrigo. corpo bunker. soterrado pelas explosões da metafísica mentira. cala-te. silêncio. que o pulsar do mundo te atravesse essa tua cabeça de miséria. és um ser doente. não há casa possível para ti num mundo que não tem treva. nem guerra. nem outra forma física de falcatrua. adeus.
"O homem que aprende a saber de onde vem pode maravilhar-se por ser o que é, ou então, recordando as distorções que sofreu, ceder a um desencanto que o imobilizará, a menos que, à maneira de Nietzsche, se valha do humor genealógico ou da desenvoltura dos jogos críticos."
BLANCHOT, Maurice; Foucault como o imagino
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
- aproximas-te do fim a uma velocidade de vertigem. é o chão quem te chama. espécie de queda ou doença. espécie de coisa de dimensão interna, estranha e invisível. corpo de ossos. desorganizado. máquina de zeros.
- sou um parasita do tempo. é isso.
- provavelmente nulo. sabendo o que és e o que fazes tens tudo para a resolução.
- resolução, revolução, neblina no olhar, boca em chamas. o que sei sei. o que sei é um pensamento enfermo, atirado para um covil de imagens selvagens, pesadelos. o fumo compulsivo de noites silenciosas. esboço de corpo.
- perdes o tempo com ideias. máscaras.
- é onde me ganho. tornei-me no rei do meu pensamento. talvez tenha definhado por fora. já não reconheço quem sou, o que sou.
- a verdade é que não és nada.
- a verdade... a verdade começa sempre com a expressão: era uma vez...
- é uma verdade histórica. um registo.
- o que são as coisas senão verdades mal contadas? ilusões tornadas factos? feridas tornadas bandeiras? vida tornada morte?
cerimónia. o quase morto está deitado numa quase cama. sangra com um ritmo de alucinação. o seu sangue salta da barriga em direcção ao tecto. fonte vermelha. torrente interminável. em volta do quase morto estão familiares, amigos, desconhecidos e outros corpos de plástico. todos deixam cair lágrimas, mesmo os de plástico. a cena é perfeita esteticamente e apresenta a mais absoluta de todas as simetrias. uma música paira no ar. é do estilo clássico, claro. por vezes o quase morto lança uns sons de sofrimento profundo e como reacção todos os presentes soltam os maiores rios de lágrimas que lhes é possível, mesmo os de plástico. a música insiste-se, repete-se, espécie de mantra. é uma cena matemática. aqui não existe tempo. a cerimónia da quase morte é infinita. o sangue e as lágrimas recusam o seu fim. o quase morto rodeado de quase vivos e de corpos de plástico, inseridos na mais absurda bolha do universo, um buraco negro que suga eternamente o sofrimento irreal de seres estáticos, estéticos, com fluxos cerimoniais. só na morte verdadeira voltarei a falar de respiração. ainda espero a luz que me visite estas imagens. lá fora está o tempo. quieto.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
- pensava que tinha perdido tudo, meu caro.
- e perdi, não sei porquê o tom de dúvida.
- vejo-o de pé. parece saudável.
- a doença que tenho é invisível.
- e que lhe faz ela, a doença?
- come a minha vida devagar.
- como assim, come?
- é uma espécie de cancro no espírito que me puxa para baixo. uma doença explosiva. não me larga, a doença, obriga-me a viver.
- nada o pode obrigar a viver.
- há uma coisa que sim.
- o quê?
- a cobardia.
- costuma pensar muito em suicídio?
- constantemente. não em suicídio rápido. antes esta forma de morte prolongada. perpetuar o sofrimento para chegar à explosão.
- a sua doença caminha intensificando-se...
- claro, é uma doença progressiva, hei-de ficar tão frágil que terei de rastejar.
- e a cura?
- já lhe disse, sou cobarde.
- e perdi, não sei porquê o tom de dúvida.
- vejo-o de pé. parece saudável.
- a doença que tenho é invisível.
- e que lhe faz ela, a doença?
- come a minha vida devagar.
- como assim, come?
- é uma espécie de cancro no espírito que me puxa para baixo. uma doença explosiva. não me larga, a doença, obriga-me a viver.
- nada o pode obrigar a viver.
- há uma coisa que sim.
- o quê?
- a cobardia.
- costuma pensar muito em suicídio?
- constantemente. não em suicídio rápido. antes esta forma de morte prolongada. perpetuar o sofrimento para chegar à explosão.
- a sua doença caminha intensificando-se...
- claro, é uma doença progressiva, hei-de ficar tão frágil que terei de rastejar.
- e a cura?
- já lhe disse, sou cobarde.
vais no caminho para casa. são os silêncios do costume. há pensamentos loucos. a estranha voz interna da auto-mentira. exterior: não há luz. tudo está misteriosamente escuro, vou dizer que tudo está precipitadamente morto. ninguém. pensamento que grita. são suicídios, são revisitações abstractas do tempo, alojadas sobre os ombros, as costas atiradas para a terra. um ritual último. uma cerimónia de regresso. escadas que descem, obscuras no seu fumo. cabeça voadora, separada do corpo, pendurada na corda, dentro da água. voz fracturada. coleccionador de venenos. eu sou o desconhecedor de sentidos. um rei de nenhum reino. vais no caminho para casa. silêncios. paisagem desolada por uma projecção da carne, do sangue, do meu coração. está frio à minha volta. estarei perto de um qualquer fim. mergulho.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
era uma palavra que se proclamava a si mesma. um lugar depois do grito. o meu nome. como saído de uma boca com a inocência da primeira vez. acabado de nascer e já demasiado perto da morte. maldita infância. este terror insuportável das famílias como estilhaços. o pai morto. fantasmas de uma cólera inexplicável. descrição da infância: portas fechadas mas constantemente arrombadas, gritos, uma paisagem absurda de violência que se espalhou pelo tempo. ter a casa noutra terra. voltar sempre à cinza, casa queimada, corpos em fogo. daí vêm as palavras limitadas. falcatrua imensa na cabeça infantil. braços. pernas. corpo entalado entre a mesa e a máquina de lavar. sai daqui homem.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
subiam as águas alagando a terra
corpo antes áspero agora dissolvido
húmus resto da animalidade compacta
língua de miséria afogamento insecto
homicida e suicida na deriva ninguém
necessário virar para o dentro dizem as vozes
a convulsão da natureza chuva ritmos
alucinação física do mundo inquietante
corpo sem cabeça água exagero de palavras
bebedeira vazio bola boca silêncio
dentes na carne sangue palavras duras
terra revelando a insignificância da vida
antes era o deserto explosão agora pântano
ó maldita idade amarga que tudo cobres
obscuro o sentir carne rasgada terra
artifício ou viagem gente massa anonimato
silêncio absurdo que te traz a arma
arma absoluta com a direcção do crime
certeiro eficaz plástico virado para dentro
corpo antes áspero agora dissolvido
húmus resto da animalidade compacta
língua de miséria afogamento insecto
homicida e suicida na deriva ninguém
necessário virar para o dentro dizem as vozes
a convulsão da natureza chuva ritmos
alucinação física do mundo inquietante
corpo sem cabeça água exagero de palavras
bebedeira vazio bola boca silêncio
dentes na carne sangue palavras duras
terra revelando a insignificância da vida
antes era o deserto explosão agora pântano
ó maldita idade amarga que tudo cobres
obscuro o sentir carne rasgada terra
artifício ou viagem gente massa anonimato
silêncio absurdo que te traz a arma
arma absoluta com a direcção do crime
certeiro eficaz plástico virado para dentro
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
dias normais numa solidão que apanha a cabeça de uma forma estranha. ontem fui ao teatro, solitário. hoje fui ao Cunha, solitário. amanhã será outro dia, provavelmente solitário. uma seca. necessidade urgente de inventar projectos para ocupar o tempo. para ocupar o tempo e por uma necessidade de voltar a funcionar. ando com o corpo emperrado. e mesmo a cabeça está sem linguagem. foi demasiado tempo longe das tábuas. demasiado. estas coisas são físicas. aqui fica o desabafo. preciso de falar de vez em quando. chamem-me egoísta se quiserem.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
é um fragmento de vida carne dentro
respiração desaparecida na sombra tua
impossível lavar as mãos o olhar vítreo
incêndios e paredes caídas sobre o corpo
um dia vinham músicas distantes era o vento
trazia a voz secreta uma arma louca
os cenários palpáveis futuro de brilho
pés descalços olhos ruína uma barreira
corpos amontoados formando ferrugem
chegou e levou a luz silêncios ó maravilhas
despidas cruas sangrentas unhas
um outro lado do mundo tornado a queda
irmãos de sangue escorraçados viagens
terás cabelos de fogo minha boca ferida
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
e é o esqueleto que se sente demasiado apertado. o ar que falta. falta porque não sai. não renova. apodrece dentro. talvez no fundo de tudo a verdade seja apenas uma: não sabes fazer. e este fazer tantas e tantas vezes se confunde com o verbo da vida que já vais perdendo o rumo no simples caminhar. e o ar que se recusa a sair. se morres o ar sai através de ti. o ar foge-te. tens neste momento o ar prisioneiro na tua caixa forte. guardas aí muitas coisas. esse ar pestilento da tua vida vai enchendo as memórias de ferrugem. é uma espécie de guerra. é um amontoado de pó. pó de ossos. membros fragmentários. cabeça voadora e sem pensamento. lavagem. cidade cinza. solitários. lá vão eles em desfiles. claro que nem tudo é dor. também há sempre a ilusão desilusão da vida. aquela que te embala sonhos intermináveis só para te acordar. sempre para te acordar. chuva na janela. no tecto. escorre pelas paredes de dentro. inunda-te a casa. casa. casa. a casa que não tens.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
desabafo do regresso ao teatro
pois então todo este tempo só ajudou a que um gajo ficasse perro. é voltar atrás. devo estar neste momento muito perto daquilo que se pode considerar um amador. fogo. tenho de dar a volta a isto. estou contente mas cheio de cagufa, claro... quem pensa que é como andar de bicicleta que a tire da chuva, não é mesmo nada assim... claro que ainda é cedo e quero fazer o espectáculo da minha vida, cada um como se fosse o último. disto não posso desistir. era o que mais me faltava. lutar pela vida. lutar pela vida. descobrir o sentido para o que se faz. é o que se me passa na cabeça agora. descobrir um sentido. preciso de voltar a ter método.
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